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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sustentabilidade; adjetivo ou substantivo? Leonardo Boff


07/06/2011  Leonardo Boff

É de bom tom hoje falar de sustentabilidade. Ela serve de etiqueta de garantia de que a empresa, ao produzir, está respeitando o meio ambiente. Atrás desta palavra se escondem algumas verdades mas também muitos engodos. De modo geral, ela é usada como adjetivo e não como substantivo.
Explico-me: como adjetivo é agregada a qualquer coisa sem mudar a natureza da coisa. Exemplo: posso diminuir a poluição química de uma fábrica, colocando filtros melhores em suas chaminés que vomitam gases. Mas a maneira com que a empresa se relaciona com a natureza donde tira os materiais para a produção, não muda; ela continua devastando; a preocupação não é com o meio ambiente mas com o lucro e com a competição que tem que ser garantida. Portanto, a sustentabilidade é apenas de acomodação e não de mudança; é adjetiva, não substantiva.
Sustentabilidade como substantivo exige uma mudança de relação para com a natureza, a vida e a Terra. A primeira mudança começa com outra visão da realidade. A Terra está viva e nós somos sua porção consciente e inteligente. Não estamos fora e acima dela como quem domina, mas dentro como quem cuida, aproveitando de seus bens mas respeitando seus limites. Há interação entre ser humano e natureza. Se poluo o ar, acabo adoecendo e reforço o efeito estufa donde se deriva o aquecimento global. Se recupero a mata ciliar do rio, preservo as águas, aumento seu volume e melhoro minha qualidade de vida, dos pássaros e dos insetos que polinizam as ávores frutíferas e as flores do jardim.
Sustentabilidade como substantivo acontece quando nos fazemos responsáveis pela preservação da vitalidade e da integridade dos ecossistemas. Devido à abusiva exploração de seus bens e serviços, tocamos nos limites da Terra. Ela não consegue, na ordem de 30%, recompor o que lhe foi tirado e roubado. A Terra está ficando, cada vez mais pobre: de florestas, de águas, de solos férteis, de ar limpo e de biodiversidade. E o que é mais grave: mais empobrecida de gente com solidariedade, com compaixão, com respeito, com cuidado e com amor para com os diferentes. Quando isso vai parar?
A sustentabilidade como substantivo é alcançada no dia em que mudarmos nossa maneira de habitar a Terra, nossa Grande Mãe, de produzir, de distribuir, de consumir e de tratar os dejetos. Nosso sistema de vida está morrendo, sem capacidade de resolver os problemas que criou. Pior, ele nos está matando e ameaçando todo o sistema de vida.
Temos que reinventar um novo modo de estar no mundo com os outros, com a natureza, com a Terra e com a Última Realidade. Aprender a ser mais com menos e a satisfazer nossas necessidades com sentido de solidariedade para com os milhões que passam fome e com o futuro de nossos filhos e netos. Ou mudamos, ou vamos ao encontro de previsíveis tragédias ecológicas e humanitárias.
Quando aqueles que controlam as finanças e os destinos dos povos se reunem, nunca é para discutir o futuro da vida humana e a preservação da Terra. Eles se encontram para tratar de dinheiros, de como salvar o sistema financeiro e especulativo, de como garantir as taxas de juros e os lucros dos bancos. Se falam de aquecimento global e de mudanças climáticas é quase sempre nesta ótica: quanto posso perder com estes fenômenos? Ou então, como posso ganhar comprando ou vendendo bonus de carbono (compro de outros paises licença para continuar a poluir)? A sustentabilidade de que falam não é nem adjetiva, nem substantiva. É pura retórica. Esquecem que a Terra pode viver sem nós, como viveu por bilhões de anos. Nós não podemos viver sem ela.
Não nos iludamos: as empresas, em sua grande maioria, só assumem a responsabilidade socio-ambiental na medida em que os ganhos não sejam prejudicados e a competição não seja ameaçada. Portanto, nada de mudanças de rumo, de relação diferente para com a natureza, nada de valores éticos e espirituais. Como disse muito bem o ecólogo social uruguaio E. Gudynas: “a tarefa não é pensar em desenvolvimento alternativo mas em alternativas de desenvolvimento”.
Chegamos a um ponto em que não temos outra saída senão fazer uma revolução paradigmática, senão seremos vítimas da lógica férrea do Capital que nos poderá levar a um fenomenal impasse civilizatório.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O verdadeiro sangue suga!

O verdadeiro sangue suga!
Sempre caminhei solitário, sempre valorizei o solidário,
E sempre comunguei com calendário, do sangue suga diário,
Contaminado, impregnado, capitalizado, nas veias que tem habitado,
Lá encontrado, na maioria dos que estão do lado, quase tudo foi sugado...
Sobrando pouco na reserva, mas é isso o que me resta, essa é a luz da fresta,
Iluminado pela janela o som da orquestra, vem e penetra no coração e sai na testa,
Que enxerga as possibilidades, além das infinitas probabilidades, na sagacidade,
Nas vielas das cidades, nos becos das capacidades, onde não se brinca com a necessidade,
Onde o bem comum é de boa vontade, sem desmerecer a leviandade como religiosidade,
Das inocências da jovialidade, daqueles que buscam na exterioridade a Liberdade,
O caminho é de diversas expressões, merecedoras de apresentações,
Cada um faz suas conexões, com receptores das próprias criações,
Cada cabeça pensa onde os pés pisam, já dizia o Sábio atentamente,
Por isso os sinais sempre te avisam, além do conscientemente,
O que multiplica é a cooperação, a doação, os valores do coração,
Pra tudo se tem uma opção, qual vai ser? Co-criação ou autodestruição?

Leonardo RCP

sexta-feira, 15 de abril de 2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Altamiro Borges: Crimes econômicos contra a humanidade

Altamiro Borges: Crimes econômicos contra a humanidade: "Reproduzo artigo de Lourdes Beneria e Carmen Sarasua, publicado no sítio Resistir: De acordo com o Tribunal Penal Internacional, crime cont..."

Oração de Nietzche: Ao Deus desconhecido. LB

Oração de Nietzsche: Ao Deus desconhecido

01/04/2011
por Leonardo Boff
Muitos só conhecem de Nitzsche a frase “Deus está morto”. Não se trata do Deus vivo que é imortal. Mas do Deus da metafísica, das representações religiosas e culturais, feitas apenas para acalmar as pessoas e impedir que se confrontem com os desafios da condição humana. Esse Deus é somente uma representação e uma imagem. É bom que morra para liberar o Deus vivo. Mas não devemos confundir imagem de Deus com Deus como realidade essencial. Nietzsche estudou teologia. Eu pude dar uma palestra na Universidade de Basel na sala em que ele dava aulas, quando fui professor visitante em 1998 lá. Essa oração que aqui se publica é desconhecida por muitos, até por estudiosos do filósofo. Por isso no final indico as fontes em alemão de onde fiz a tradução. No original, com rimas, é de grande beleza. LB
Oração ao Deus desconhecido
Antes de prosseguir no meu caminho
E lançar o meu olhar para frente
Uma vez mais elevo, só, minhas mãos a Ti,
Na direção de quem eu fujo.
A Ti, das profundezas do meu coração,
Tenho dedicado altares festivos,
Para que em cada momento
Tua voz me possa chamar.
        Sobre esses altares está gravada em fogo
Esta palavra: “ao Deus desconhecido”
Eu sou teu, embora até o presente
Me tenha associado aos sacrílegos.
Eu sou teu, não obstante os laços
Me puxarem para o abismo.
Mesmo querendo fugir
Sinto-me forçado a servi-Te.
u quero Te conhecer, ó Desconhecido!
Tu que que me penetras a alma
E qual turbilhão invades minha vida.
Tu, o Incompreensível, meu Semelhante.
Quero Te conhecer e a Ti servir.
Friedrich Nietzsche (1844-1900) em Lyrisches und Spruchhaftes (1858-1888). O texto em alemão pode ser encontrado em Die schönsten Gedichte von Friederich Nietzsche, Diogenes Taschenbuch, Zürich 2000, 11-12 ou em F.Nietzsche, Gedichte, Diogenes Verlag, Zurich 1994.

Que sonhos orientam nossa vida? LB

Que sonhos orientam nossa vida?

26/03/2011
por Leonardo Boff
Que sonhos orientam nossa vida?
O que decide o destino de nossa vida é o sonho que alimentamos e o que fazemos para realizá-lo. Por isso os sonhos são da maior importância. Morrem as ideologias e envelhecem as filosofias. Mas os sonhos permanecem. São eles o húmus que permite continuamente projetar novos projetos pessoais novas formas de convivência social e de relação para com a natureza.
1.Qual é o nosso sonho do homem branco
Com acerto escrevia o cacique pele vermelho Seattle, ao governador Stevens, do Estado de Washington em l856, quando este forçou a venda das terras indígenas aos colonizadores europeus. O cacique, com razão, não entendia por que se queria comprar a terra e com ela, a aragem, o verde das plantas e o esplendor da paisagem. Neste contexto refletia que os peles vermelhas compreenderiam o por quê e a civilização dos brancos “se conhecessem os sonhos do homem branco, se soubessem quais as esperanças que transmite a seus filhos e filhas nas longas noites de inverno e quais as visões de futuro que oferece para o dia de amanhã”.
O que o cacique sequer imaginava é que o homem branco no lugar do sonho, esperanças e visões havia colocado a vontade de dominação da Terra e das pessoas, as máquinas, os bancos, os computadores, as armas de destruição em massa, isto é, projetos que implicam a devastação da natureza e da vida.
Hoje o que urgentemente precisamos não é de mais ciência e de mais técnica para aumentar nossa dominação da natureza e com isso fazer crescer nossa riqueza, especialmente, nas bolsas e nos mercados especulativos. O que precisamos, de verdade, sem dispensar a ciência e a técnica, é de um sonho bom que possa galvanizar as mentes e nos levar a práticas inovadoras.
Então: qual é o nosso sonho? Que esperança transmitimos aos jovens? Que visões de futuro ocupam as mentes e o imaginário coletivo através das escolas, dos meios de comunicação, da internet, dos facebooks, dos twitters e de nossa capacidade de criar valores?
As respostas a estas indagações geram um novo padrão civilizatório, radicalmente diferente daquele vigente. Descendo ao concreto do dia-a-dia, face às transformações que atingem os fundamentos de nossa civilização atual indagamos: Quais são os atores sociais que propõem um novo sonho histórico e desenham um novo horizonte de esperança?
2. Quem vai realizar os sonhos?
Quem são os sujeitos coletivos, construtores da nova civilização? Sem detalharmos a resposta podemos dizer que eles se encontram em todas as culturas e em todos os quadrantes da Terra. Eles irrompem de todos os estratos sociais e de todas as tradições espirituais. Eles estão em todas as partes.
Mas principalmente são os que se sentem insatisfeitos com o atual modo de viver, de trabalhar, de sofrer, de se alegrar e de morrer, em particular, os excluídos, oprimidos e marginalizados. São aqueles que, mesmo dando pequenos passos, ensaiam um comportamento alternativo e enunciam pensamentos criadores. São ainda aqueles que ousam organizar-se ao redor de certas buscas, de certos níveis de consciência, de certos valores, de certas práticas e de certos sonhos, de certa veneração do Mistério e juntos começam a criar visões e convicções que irradiam uma nova vitalidade em tudo o que pensam, projetam, fazem e celebram.
Por tais sendeiros desponta a nova civilização que será de agora em diante não mais regional, mas coletiva e planetária, e esperamos, que signifique a superação histórica do atual capitalismo na sua forma neoliberal e globalizada e, por isso, mais solidária, mais ecológica, mais integradora e mais espiritual.
3.A civilização da re-ligação
Que nome vamos dar ao novo que está emergindo? Ensaiamos uma resposta: será uma civilização mais sintonizada com a lei fundamental do universo que é a interconexão de todos com todos, a sinergia e a complementaridade, valores sistematicamente negados pela cultura do capital, profundamente individualista. Será, numa palavra, a civilização da re-ligação de tudo com tudo e de todos com todos. Por isso será uma civilização que dará centralidade à re-ligião, não simplesmente como uma instituição consagrada, mas como uma espiritualidade. O que se opõe à religião não é a irreligão ou o ateismo. É a falta de conexão, o sentir-se perdido neste mundo. Entendo aqui a re-ligião em seu sentido originário e não confessional como aquela instância que se propõe a criar uma centralidade no ser humano, a re-ligar todas as coisas entre si porque percebe o Todo uno, diverso e complexo e o vê re-ligado ubilicalmente à Energia de Fundo que sustenta o inteiro universo e que podemos chamar também de Fonte Originária de todo Ser.
Esta civilização será re-ligiosa e espiritual ou não será. Deverá ser aquela experiência radical que consiga re-ligar todas as coisas e gestar um sentido de totalidade e de integração. Então poderá surgir a civilização da etapa planetária, da sociedade terrenal, a primeira civilização da humanidade como humanidade.
Sentir-nos-emos todos enredados numa mesma consciência coletiva, com um sentido concreto de cuidado de nossa Mãe Terra, assumindo uma mesma responsabilidade comum, dentro de uma mesma e única arca de Noé que é a nave espacial azul-branca, a Casa Comum. Esta nova civilização não é apenas um desiderato e um sonho ridente. Ela está em curso. Está madurando. Como disse um pensador francês:”nada mais poderoso do que uma idéia que chegou a sua hora de realização”. A hora poderá demorar, mas virá.

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